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Alysson Lisboa Neves Jornalista
03/Feb/2017 - 12h38 - Atualizado em 03/Feb/2017 - 16h33

Rede social promete “vida eterna”

Plataforma quer eternizar interações nas redes sociais dos usuários


Por Alysson Lisboa Neves
Ainda em versão beta, Eter9 quer interagir mesmo depois da morte do usuário das redes sociais
Divulgação/Eter9

Eu posso decidir/Se vivo ou morro por que/Porque sou vivo/Vivo pra cachorro e sei/Que cérebro eletrônico nenhum me dá socorro/ No meu caminho inevitável para a morte. O músico Gilberto Gil, que escreveu a letra de Cérebro Eletrônico em 1969, não podia imaginar o avanço que teria a inteligência artificial e seu uso para prever o comportamento humano e gerar conteúdo automaticamente.

A única certeza que temos na vida é que um dia morreremos, certo? Errado! Pelo menos no mundo virtual você poderá continuar interagindo nas redes sociais depois de deixar de existir “fisicamente”. Hoje em dia, bancos e operadoras de celular já interagem com clientes e usuários por meio de bots, mas você precisa estar vivo, pelo menos por enquanto.

A proposta ficcional de interação pos mortem já foi trazida pelo envolvente episódio Be Right Back (Volta logo), da segunda temporada de Black Mirror, disponível no Netflix. O filme tem muita semelhança com um aplicativo Eter9, plataforma portuguesa em operação também nos Estados Unidos. A novidade está dando o que falar. O CEO da empresa, Henrique Jorge, concedeu entrevista exclusiva ao SIMI, direto de Portugal, e falou sobre inteligência artificial, morte virtual e crenças. Confira!

Simi - Conte-nos um pouco de como surgiu a ideia de criar o Eter9.

Henrique Jorge - Comecei a me interessar por tecnologia e inteligência artificial quando tive contato com os primeiros computadores no início dos anos 1980. Sempre fui fascinado em saber como as máquinas funcionavam por dentro, como o código de máquina, linguagem Assembler e, mais recentemente, computação quântica. A rede social Eter9 nasceu ao som de todos estes conceitos, inspirada tanto por casos reais – como a Máquina de Turing –, como por ficção, como o romance do William Gibson, Neuromancer, e o filme The Matrix. Com o tempo, esta paixão foi crescendo e a ideia do Eter9 começou a surgir naturalmente, como forma de explorar o potencial da Inteligência Artificial e de criar uma realidade onde o orgânico e o virtual são um só.

Simi - No episódio de Black Mirror uma mulher continua interagindo com o marido falecido por meio das redes sociais. O Eter9 funciona do mesmo modo?

Henrique Jorge - Muitas pessoas fazem a associação da nova rede social Eter9 com a série televisiva Black Mirror, especificamente com esse episódio. Curiosamente, eu não tinha conhecimento da série até que os jornalistas começaram a fazer comparações com o Eter9. Meses mais tarde, no final de 2015, fui assistir ao episódio. Confesso que fiquei arrepiado, especialmente por ter muita relação com a essência do que estamos fazendo. Isso é prova de que o ser humano tem pensamentos semelhantes e fazemos todos parte de algo maior e infinito. O ser humano é realmente extraordinário!

Simi - Como é a engenharia do sistema que você desenvolveu?

Henrique Jorge - O Eter9 é baseado em um sistema de inteligência artificial que aprende continuamente com seus usuários. Assim, quando alguém não estiver online – e se assim o pretender –, o elemento chamado "contraparte”, puramente virtual e configurável pelo usuário, continuará a interagir virtualmente com os seguidores. Esta relação entre humano e virtual não pretende ser uma substituição do primeiro pelo segundo, mas sim, uma cooperação. Se o utilizador orgânico pretender manter esta cooperação eterna, mesmo depois em que não estiver presente fisicamente, será possível manter a “contraparte” ativa.

Simi - E será perceptível uma mudança no modo da escrita e da interação?

Henrique Jorge - A “contraparte” vai interagir na rede social de acordo com os padrões de personalidade que foi recolhendo nas publicações do seu usuário. Assim, a atividade da “contraparte” será tanto mais eficiente quanto maior for a interação orgânica na rede. Isso torna cada vez mais semelhante o tipo de interação e a linguagem.

Simi - Não soa para você um pouco macabro ou estranho continuar interagindo no mundo virtual com alguém que não está mais vivo no plano físico?

Henrique Jorge - O conceito do Eter9 – imortalidade, ainda que digital – é um tópico sensível e pode ser mal interpretado. Não pretendemos criar substitutos para os usuários, mas extensões virtuais dos mesmos – como o próprio nome indica, “contrapartes”. Este tipo de interação permite, não apenas que se mantenham relações virtuais com quem admiramos, como uma figura pública ou amigos, mas também a criação de relações, no futuro, com “contrapartes” de usuários que nunca chegamos a conhecer, como antepassados familiares.

Simi - Mas o controle estará sempre na mão do vivos, correto?

Henrique Jorge - Apenas os usuários que querem continuarão a interagir com as “contrapartes” de usuários que já não se encontrem presentes fisicamente. Na plataforma, o usuário tem total controle sobre a sua “contraparte” e pode decidir o presente e o futuro da sua conta.

Esta relação entre humano e virtual não pretende ser uma substituição do primeiro pelo segundo, mas sim, uma cooperação

Simi - A rede está tendo boa adesão? Quais são os índices de crescimento de sua base de clientes?

Henrique Jorge - O Eter9 teve (e continua a ter) uma excelente adesão. Considero que esta rede social traz um pouco de ar fresco a todos os usuários, fato que leva a um aumento exponencial do número de pessoas que estão criando seus registros. No prazo de um ano, houve um crescimento de 1000% no número de usuários de todas as partes do mundo.

Simi - Existe restrição em algum país para que o sistema opere ou outras implicações legais?

Henrique Jorge - Neste momento, o Eter9 está disponível em todos os países sem qualquer restrição. Saliento que nunca nesta rede social se tratará uma pessoa que já não está presente fisicamente como uma pessoa viva, uma vez que esse usuário estará identificado e apenas ativo com a sua “contraparte”, se este foi o seu desejo.

Simi - O sistema, quanto mais alimentado por informações, posts, vídeos e textos, mais inteligente ele fica? O algoritmo trabalha com o conceito de learning machine?

Henrique Jorge - Sim, é exatamente essa a ideia. A “contraparte” (totalmente configurável pelo usuário orgânico) é capaz de absorver toda a informação de acordo com publicações e comentários, processando-a dentro do conhecimento adquirido. Quanto maior for a interação do usuário, mais sua “contraparte” irá aprender a agir.

Como seria interessante manter um diálogo com Steve Jobs no universo do Eter9

Simi - O senhor será usuário da plataforma e terá perfil ativo quando falecer?

Henrique Jorge - Ter uma conta com a minha “contraparte” ativa, mesmo depois de eu não estar mais presente neste plano físico, é um dos meus objetivos. Da mesma maneira, gostaria de ter a oportunidade de comunicar com “contrapartes” de pessoas queridas que já morreram (por exemplo, meu pai, que faleceu quando eu tinha 3 anos), ou até mesmo algumas figuras públicas que me inspiram! Como seria interessante manter um diálogo com Steve Jobs no universo do Eter9.

Para conhecer a plataforma acesse: https://www.eter9.com

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Sobre o autor
Alysson Lisboa Neves Jornalista

Jornalista formado pelo Uni-BH, Especialista em Produção em Mídias Digitais pelo IEC PUC Minas e Mestre em Comunicação Digital Interativa pela Universitat de Vic, Espanha. Mais de 20 anos de experiência em mídia impressa e digital, com passagem pelos jornais Hoje em Dia e Estado de Minas. Na Revista Encontro desempenhou a função de editor de novas mídias, coordenador da equipe digital e colunista. É também especialista em desenho de jornais e revistas em tablets e smartphones. Foi professor de jornalismo no Centro Universitário de Belo Horizonte - Uni-BH. É professor de pós-graduação no IEC PUC Minas e de Empreendedorismo no Cotemig. É palestrante nas áreas ligadas ao jornalismo digital, novas mídias, inovação em desenho de jornais e revistas, redes sociais e marketing digital. É colunista do Portal Uai e consultor de novas mídias e marketing digital.

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