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08/Jun/2018 - 12:00 - Atualizado em 11/Jun/2018 - 11:59

“Empreender é tirar da lama um diamante, fazer muito com pouco”

O #PerfilEmpreendedor traz o fundador da Sidequest, Natan Rebelo, que fala sobre a dificuldade de pivotar seu negócio e empreender no mercado de games


Por Renato Carvalho/SIMI Belo Horizonte/MG
Natan Rebele tem 27 anos e é fundador da Sidequest
Crédito: Renato Carvalho/SIMI

Empreender não é um processo fácil. Ainda mais quando, depois de anos de trabalho, você percebe que é preciso pivotar para o seu negócio funcionar. Mas como lidar com isso? O #PerfilEmpreendedor desta semana traz o fundador da Sidequest, antiga Gamelyst, Natan Rebele.

Aos 27 anos, o empreendedor, que nasceu no Paraná, passou pela Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo, se estabeleceu em Belo Horizonte. Quer saber o motivo de ele ter escolhido Minas Gerais para morar e evoluir seu negócio? Leia a entrevista completa:

SIMI: Primeiro explique o que era a Gamelyst e o que é a Sidequest hoje.
Natan: A Gamelyst é um projeto que nasceu em setembro de 2014 com a proposta de ser uma assinatura mensal de jogos para computador: uma Netflix dos games. Já a Sidequest desenvolve soluções digitais customizadas para empresas e indústrias.

SIMI: Como foi sua experiência no Seed?
Natan: O Seed não foi a nossa primeira experiência dentro de aceleração. Acredito que isso também tenha sido um fator importante para chegar até aqui. A gente já tinha vencido o Lemonade 02, depois passamos na aceleração da Techmall e aí sim tivemos entrada no Seed. Entre essas experiências de acelerações, o Seed foi um passo importante, especialmente em um momento em que a gente estava bem maduro. Ele veio para complementar tudo o que a gente já tinha aprendido e o que estava em aprendizado. Especialmente em uma etapa que é uma das mais complexas: a etapa de mercado. Aí que o bicho começa a pegar.

SIMI: E como você veio para Belo Horizonte?
Natan: Venho de família bem humilde. Comecei a trabalhar com 14 anos em lan houses e sempre tive vontade, desde pequeno, de ser alguém que pudesse mudar o mundo para melhor. Inicialmente, pensava em ser presidente do Brasil (rs), mas acho que estava mais para o viés de líder e aí descobri que talvez tomando a frente de uma empresa poderia ser bacana. Com 23 anos, fui para o Rio de Janeiro com R$ 300 no bolso para estudar Economia na Universidade Federal Fluminense, em Campos do Goytacazes. Lá, trabalhei como vendedor de sapatos. Recebi bolsa, me tornei líder de classe, iniciei a iniciação científica, porém, senti que ao mesmo tempo que a universidade agregava muito, me travava um pouco. Queria ser empreendedor, queria inovar. Quando tive essa ideia com o Alexandre, que é meu amigo desde a infância, o Rio não estava o melhor lugar para essa parte de tecnologia e nem de games. Era mais voltado para petróleo, gás, mineração. Então, a gente decidiu ir para um lugar que tinha dinheiro e investimento. Fomos para São Paulo. Lá, percebemos que é um ecossistema grande, mas é um pouco mais complexo, que está um pouco mais maduro e evoluído. Já existem milhares de filtros que para o empreendedor que estã entrando no mercado é um desafio. Já estava namorando à distância com uma moça em BH e pensei “Por que não unir o útil ao agradável?”. Quando eu vim parar em Belo Horizonte, estava acontecendo um evento do Startup Brasil aqui e custava R$ 1.200 a entrada. Não tinha dinheiro nem para me manter. Liguei para o cara e falei: “não tenho dinheiro, mas tenho uma boa ideia. Se você me der oportunidade, tenho certeza que vai valer a pena ir no seu evento”. Ele falou: “só com uma condição. Já vendemos todos os ingressos, então só se alguém cancelar”. Uma hora antes do evento, ele me liga, avisando que houve um cancelamento. Lá no evento conheci o João Bonomo, professor do Ibmec, que adorou minha história de vida, do projeto, e falou que podia nos ajudar. Ele nos apresentou o Lemonade. Disputamos a entrada, entramos e ganhamos. Depois aconteceu toda essa evolução. Acho que foi a primeira oportunidade que tive de mostrar minha capacidade, minha resiliência, que acho que são habilidades que todo empreendedor precisa muito. Empreender não começa dentro de sua startup, é só olhar para sua vida, o que você passou, o tanto que você lutou.

SIMI: Como está a startup hoje?
Natan: Depois de três anos, acho que a Gamelyst foi uma experiência muito boa. Conheci muitas pessoas importantes que agregaram muito ao nosso negócio e para nós mesmos como empreendedores. A gente percebeu que tínhamos uma tecnologia muito forte, porém, que havíamos investido tudo que podíamos na parte da tecnologia. Éramos um projeto B2B2C, ou seja, os estúdios produziam jogos, passavam para a gente, a gente alugava para os clientes. Mas investimos muito na parte B2B, então estava bem estruturada. E quando fomos investir em marketing, a gente não tinha dinheiro. Não tínhamos como colocar para frente. E aí eu acho que vem mais uma prova de que realmente você é empreendedor. Aprendi durante esse período que desafios não são problemas, mas oportunidades. A gente tinha um grande desafio pela frente. Sabíamos muito sobre games e as técnicas utilizadas dentro deles. E o termo gamificação está bombando e as empresas estão utilizando bastante. Vimos que era algo legal, que a gente compreende e que poderia ser aplicada em negócios. Você se lembra que eu disse que a gente investiu muito em tecnologia? A gente entendia muito de desenvolvimento. Então pensamos: “por que não começamos a desenvolver aplicativos customizados aplicando o viés da gamificação para as empresas e indústrias da região?”. A primeira empresa que veio abordar a gente foi a TekSid, do grupo Fiat Chrysler e depois disso a gente já fechou um contrato de um ano com uma venture builder, de São Paulo, que chama Internet Intelligence. Aí outros projetos foram surgindo e a gente viu que encontramos o nosso mercado. As coisas só foram evoluindo e melhorando. Tínhamos acabado de pivotar a Gamelyst por completo, saindo de um mercado de games e indo para a gamificação, desenvolvendo softwares e aplicativos para empresas.

SIMI: É difícil pivotar depois de ter uma trajetória de muito trabalho?
Natan: Não é fácil. Quem diz o contrário está mentindo. Depois de muito tempo criando aquele projeto, se dedicando, vendo a equipe se formar, pessoas investindo, você perceber que precisa mudar é difícil. E aí vem o maior desafio: enxergar aquilo não como fracasso, mas como aprendizado muito importante para que você dê um passo que traga os resultados que você sempre almejou. Fazer algo que realmente traga valor ao mercado. Tem que entender que você não falhou e sim que isso faz parte do aprendizado. Até no (livro) Lean Startup mostra que você tem que estar sempre errando para poder aprimorar. Acho que a pivotagem é o master desses erros. Se você souber lidar com eles, você pode acabar depois tornando isso alguma coisa de sucesso, que vai trazer resultado.

SIMI: Como é empreender no mercado de games?
Natan: Acredito que o mercado de jogos, como o de empreendedorismo e startups no geral, no Brasil, não é explorado há tanto tempo assim. É algo relativamente novo e o mercado de jogos, principalmente, sempre sofreu preconceito por acharem que era coisa de criança. Mas se esquecem de que é um mercado que já garantiu mais de US$ 99,6 bilhões de 2016 para 2017, e que vem crescendo de 4% a 5% por ano. É um mercado gigantesco e que no Brasil ainda é pouco explorado. Acredito que agora, desde 2017 para cá, a gente começa a enxergar que o Governo começou a ver isso como algo importante. Aí nascem algumas leis de incentivo, alguns investimentos para incentivar a criação de jogos. Os jogos não são só aplicados para diversão e entretenimento, mas podem ser aplicados para educação, para inclusão sociais e várias outras coisas. É muito desafiador empreender neste mercado.

SIMI: Qual é a maior dificuldade para empreender no cenário de games?
Natan: Primeiro, na minha família ninguém tinha feito uma universidade federal. Então foi uma decisão drástica sair da faculdade e falar que não era aquilo que eu queria. Outra questão difícil é conseguir se manter financeiramente com muito pouco. Ter uma equipe para poder manter, você tira do que mal tem para poder compartilhar com outros que também acreditam no projeto. Eu acho que aí que está um dos maiores desafios: esse choque entre você ter o seu sonho e a sua realidade. È aí que mora o perigo. É preciso estar sempre com o pé no chão. A primeira vez que a gente encontra o empreendedorismo e inovação temos aquela reação “uau, que coisa bacana, sensacional”, só que é preciso ter o pé no chão. Às vezes ficamos flutuando no início. Hoje, com mais experiência, sou mentor, já ajudei mais de 250 startups, então eu falo: “quanto tempo você tem para se manter até que seu negócio aconteça?”. Porque às vezes o tanto que você tem, para o tempo que o seu negócio precisa para acontecer não é suficiente. Você precisa ser honesto consigo mesmo. De início, o que você tem mais de mais importante no negócio são as pessoas. É aquela regra, pessoas boas fazem bons produtos e pessoas compram bons produtos. Se você não tiver boas pessoas, não vai surgir um bom produto para aquilo ali. É um desafio, você tem pouco e tem que fazer muito. Tirar da lama um diamante. Por isso, são poucas as startups que conseguem alcançar o sucesso. É difícil, mas acredito que os empreendedores são pedras mal lapidadas, e que com esses erros e acertos, eles vão se polindo, e aquela pedra que você achava feia no início, de repente, você enxerga o empreendedor completamente diferente depois de cinco anos.

SIMI: O que fez você ficar em Belo Horizonte?
Natan: Olha que passei pelo Rio de Janeiro e por São Paulo, que são concorrentes do mercado empreendedor de Belo Horizonte. Acredito que Minas Gerais tem algo muito bacana que é o fato de o ecossistema daqui estar se criando dentro de um mindset de união, de compartilhamento. Ao mesmo tempo que estou no Seed, tenho como sócios a Techmall, sou mentor no Lemonade, o Fábio Veras, que é fundador da Fiemg Lab, é investidor da Gamelyst, passei pela aceleração do Seed, que também fez parte do nosso processo de aprendizado. Todo o ecossistema abraça você, e eu não sou daqui, estou aqui há três anos. Então, para a pessoa que já está aqui dentro, e tem acesso a isso, só basta sair de casa, bater na porta dos lugares e apresentar uma proposta que tenha valor de verdade. Esse é o diferencial de BH.

SIMI: O que você você para o seu futuro e da Sidequest?
Natan: Para o meu futuro, vejo que nunca vou deixar de empreender. Acho que é uma escolha sem volta. Realmente é um mindset, é uma chave que vira. Você não vai mais conseguir entrar numa empresa, de outra pessoa, e ter que seguir regras, sem que possa dar sua opinião. Porque você se torna criativo, disruptivo, quer transformar e ter um propósito maior. E falando sobre propósito, realmente ainda busco entregar algo que vai mudar e agregar o mercado. Eu acho que esse é o meu propósito empresarial. E como propósito pessoa eu ainda quero ter a oportunidade de trazer para dentro do mercado de, alguma forma social, um pouco do que eu não tive acesso a infância. Que outras pessoas possam ter. Tenho esses dois propósitos que caminham lado a lado e que se complementam. Acredito que só vou conseguir fazer isso no momento em que eu realmente tiver algo de grande impacto para o mercado. Mas isso é bem para frente, não imagino agora.

SIMI: Você tem outros projetos além da Gamelyst/Sidequest?
Natan: Hoje eu fundei uma outra empresa: a Amplifico. A gente oferece um pacote de marketing de conteúdo e engajamento para Facebook e Instagram, para micro e pequenas empresas. É aquilo que te falei, você deixa de enxergar desafios como problemas e passa a enxergar desafios como oportunidade. O empreendedor enxerga oportunidades. Você começa a se tornar empreendedor em série, não para, está sempre olhando uma solução para as coisas.

SIMI: Você tem alguém em quem se inspira?
Natan: Tenho meu lema. Não gosto de pegar apenas uma pessoa porque não acredito em perfeição. Tenho várias pessoas que me inspiram. Na parte de criatividade e vendas é o Steve Jobs. É bem clichê, mas realmente estudei muito sobre ele, e é alguém que eu odiava. Mas porque eu sempre fui muito mais para o lado do líder e gestão e não acho que ele seja inspiração nesta área. Na área de inovação e tecnologia, o Elon Musk é outro clichê, mas me inspira. Na parte estratégica, o Bill Gates fez muitas coisas. A grande sacada é não pegar apenas um como exemplo, mas sim o que vários têm de melhor. Pegue cada um e veja o que eles fizeram de melhor e isso vai servir de inspiração para você.

SIMI: Você tem alguma indicação de leitura?
Natan: Tenho alguns, gosto bastante de ler. Tem o “O lado difícil das coisas difíceis”, um dos melhores livros que já li na minha vida. “De zero a um”, “Lean Startup” é legal para quem está começando. “Estratégia do oceano azul”, é muito bom. Acredito que esses quatro são bons livros para se ler.

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